quarta-feira, maio 05, 2010

Ah, querida eurídice, ouve meu canto
Mesmo que me mate a saudade
Há de ficar na eternidade meu canto
Mesmo que por de trás de cada sonoro sorriso
permaneça um silencioso pranto.

Por ti hei de enfrentar os sete ciclos do inferno
Cruzar com o barqueiro o intransponível Aqueronte
Fazer cair por terra o uviante tricéfalo
E no impulso de amante vencer a tudo em honra do seu nome

Ah, minha eurídice, ouve o canto de minha lira
Que já semeou ouro no olimpo e fez chorar os deuses.
E não te destraia com a dança das fúrias

Quão grande seja a dor que ora me atravessa
Maior será meu amor e minha força
Ah, minha eurídice, então, secai vossas lágrimas
e não temei o Hades.

A Profecia é uma só.
De todas as bençãos dos deuses,
preferiste e escolheste tu a mim
Eu sou seu Orfeu e estou em suas mãos.

Seja seu coração o meu túmulo, seja minha alma o seu jardim.

Excessos religiosos: inzêmprio de coisa nociva

terça-feira, fevereiro 02, 2010


Nos últimos 30 dias eu passei a acompanhar com atenção alguns eventos e situações que me deixaram bastante preocupado com o rumo que algumas coisas estão tomando. Na verdade, creio que essas preocupações todos nós sentimos em alguns ou em todos os momentos da nossa vida.







A bola da vez são os excessos religiosos. Ah, os excessos. Em bom baianês do interior do estado, a "tanficância"... Devo dizer, antes de qualquer coisa, que não sou iniciado em qualquer denominação religiosa, embora eu me considere bastante espiritualizado.

Acompanho consternado o que penso ser um discurso "fundamentalista cristão" (seja de matriz católica ou de matriz protestante/evangélica/(neo)pentecostal) difundido com grande força pelos veículos de comunicação de massa. Me refiro aqueles programas de variadas denominações religiosas que passam a partir das 21h em diversos canais ou até mesmo de canais exclusivamente dedicados às práticas religiosas. Nos últimos dias eu zapeei entre um canal e outro (podemos ter 300 canais na SKY, mas, efetivamente temos 2 canais úteis, 150 de vendas e 148 religiosos) e assisti a pregação de um padre e de dois bispos (cada um em seu templo e em seu canal). Qual não foi minha surpresa? Primeiro, as falas eram uníssonas! Ora, isso deveria ser uma benção (literalmente), já que faz cair por terra as disputas (ao menos as discursivas) entre as igrejas. Mas não foi bem isso que eu percebi e foi exatamente isso que me assutou.

As falas dos três sacerdotes denotam uma coisa incômoda: que ainda conservamos valores (diria eu) um tanto arcaicos e perdemos o foco do que realmente interessa e é relevante - a religação com o divino e com os os outros.

Política e religião são virtualmente indissociáveis, mas a igreja é uma entidade perigosamente política. Essa associação deveria ser a todo custo evitada ou banida.

Nas falas dos sacerdotes eu me assustei com a perversão de termos como liberdade, livre arbítrio, igualdade, amor, amor de Deus, justiça, retidão... Vi um Deus (que até onde minha inocência e arrogância me dizem) que é, supostamente, nosso Pai (cósmico, universal, criador, enfim, vocês decidem como chamar) e entidade feita de puro amor ser pintado como um general cruel, vingativo e cheio de rancor.

Não lembro bem se foi o padre, o bispo ou a bispa que diferenciaram o temer do escravo, do carrasco e do filho, sendo que o escravo teme a fúria do senhor e do carrasco, o carrasco teme porque há poder político e poder financeiro em jogo. Já o filho "teme porque ama". Até onde eu sei, amor (me corrijam se eu estiver equivocado!) é algo que não caminha junto do medo... respeito, cuidado, atenção e carinho, eu concordo... mas medo? Fica parecendo uma piada irônica e sem graça... "Olha, Deus te ama, é seu Pai Eterno, mas se você não fizer o que ele quer que você faça ele acaba com sua vida com requintes de crueldade". Amor é amor. Medo é medo. Não se misturam.

As falas construíam um verdadeiro manual de instruções sobre como "amar" esse Deus das Igrejas, como ir ao céu e como ser livre, argumentando que, por inzêmprio, ser livre é, na verdade, estar livre de (alguma coisa). "A importância do celibato", "a importância da retidão" (seja lá que maluquice seja isso!), "quem Deus condena e condenará", "quem é o justo", "sobre quem a fúria de Deus é alvo". Estar livre das drogas (lícitas ou não) é algo cantado em verso e prosa!! Estar livre de pecados... mas quais?

Até onde eu sei, Jesus bebia vinho (tornou água em vinho), gostava de celebrar a vida dividindo alimentos (multiplicou pão e peixe)... Logo, beber não é um problema. O excesso da bebida é complicado, reconheço, mas ainda assim, não vamos pensar que só peca aquele que fuma um baseadinho, cheira uma carreira de pó, toma um docinho ou bebe uma cervejinha.

nota do blogueiro: a pessoa que fuma pedra É PECADORA, é na verdade um zumbi que atende pelo nome científico de "Catiribum" - fumou, morreu e continua vagando pelo nosso mundo...

Voltando.

E essa coisa de pecado (sustentado por essa moral desnecessária) que diz que se peca "por atos, palavras, pensamento e omissão" (logo, estamos todos com nossa suntuosa mansão de vaidades no inferno, correto?) e segundo porque tem muita gente que nunca bebeu cerveja, cachaça, vinho, espumante, fumou cigarro ou consumiu as demais drogas, arrota que é santo(a), mas tem um coração podre, cheio de maldade, cobiça, ira... desses que seria detonado no Tribunal de Osiris de tão pesado! O que vale é o coração e o que sai dele pela boca, as obras ou seguir uma dada conduta?

E quanto ao amor ao próximo, a si mesmo, o perdão ao próximo e a si mesmo... a paz (que é feita para os atormentados) e o perdão (feito para os imperdoáveis) e a misericórdia? E o não julgar para não ser alvo de julgamento... esse último eu ouvi o disparate que "se pode julgar baseado na bíblia"!!! Mas que maluquice!!! Um livro escrito a não-sei-nem-quantas mãos, traduzido, retraduzidos, assimilado por diferentes culturas, que expressa valores muitas vezes conflitantes.... mas enfim, que seja pela Bíblia - lá está escrito que para Deus não há pecado maior ou menor... que consumir carne de porco é pecado, que consumir lagosta é pecado... assim como matar, adulterar, cobiçar, conspirar... se tudo é pecado, nada é, correto? O Borges disse uma vez que Deus medirá os homens com a Sua medida e eu concordo com isso.

Mas seguindo no discurso religioso fundamentalista.

Digo fundamentalista porque ele incita a intolerância justificando o discurso em uma Divindade e nas vontades dessa Divindade. E nessa busca interminável por retomar os valores que se perderam. Não há mais julgamento, há condanação sumária. As pessoas falam e agem por Deus: matam, humilham, agridem... enquanto entoam sonoros hinos de louvor.

Não é difícil encontrar explicações para as catástrofes embasadas nesse discurso (da vontade Divina e do Castigo Divino): atribuir as recentes tragédias do Haiti pela prática dos Voduns é a mais recente e pra mim foi a pior delas! Assim disseram os primeiros-ministros, assim disseram os "irmãos" batizados, assim reproduzem blogueiros, jornalistas religiosos, políticos... todos com as devidas citações bíblicas e aquele tom de "eles merecem tudo que com eles acontece".

Muito me aborreceu atribuir uma tragédia em um país que estava pra lá da miséria a um castigo divino (inclusive, uma tragédia que estava prevista na Bíblia!). E as pessoas falam disso em suas calorosas falas e entoam glórias e aleluias... não pode haver júbilo na dor alheia, na tragédia alheia.

E de tudo isso, o maior problema são os excessos, porque as pessoas têm o direito a suas fés, por mais cruéis que elas sejam e por mais nocivas. Mas isso é amplamente divulgado... há um suporte nos meios de comunicação de massa (impressos, televisivos, radifônicos) e também nos templos. Se foca na merreca da conduta e se esquece do fundamental: o coração, os atos e as obras. Esses podem ser escassos, afinal, pessoas de boa conduta não precisam de boas obras... ¬¬

Todo mundo quer condenar as sodomas e gomorras para libertar a si de uma condenção criada e imposta por eles mesmos. (E isso me enfurece!). Desse jeito, não basta ser correto, os outros devem antes de qualquer coisas estar errados (erradíssimos, por sinal!). Cadê o fio condutor da bíblia que é a transformação e evolução espiritual? O perdão maduro que permite que seja oferecida sem medo a face, que permite perdoar o algoz, já que ele nem sempre sabe o que faz? As verdadeiras sodomas e verdadeiras gomorras estão no caração dos injustos, assassinos, invejosos, mentirosos e que usam o nome de Deus em favor de seus propósitos pessoais e que vão no seu caminho ensinando o ódio e a indiferença travestido de amor e fé! O bezerro de ouro continua ali exposto e todos eles se curvam diante dele. Eu não me curvo.

Não sei qual será o resultado disso, mas tenho (em última instância) muito medo. Vivemos uma fase que pode ser anterior a um grande avanço ou a um grande retrocesso. De qual lado você está?

Na boa? Vamos amar. Vamos ser gentis conosco e com o nosso próximo. Fazer caridade se for algo que te faça sentir bem. Respeitar as pessoas do mundo, as coisas do mundo. Perdoar e nos permitir ser perdoados. É dificil, eu sei. Mas é algo tão simples! Vamos amar, Deus é amor, lembram?

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Cor multiplicada, som, palavra má porque não sei dizer.
Saiba. Diga você
(caetano veloso)

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Agora eu desejo que o tempo voe... ao seu lado eu espero que ele congele

Encantado (sempre) por Alice Ruiz

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Se

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...

Você não pode quebrar o que não lhe pertence
Nem eu.

Metas para 2010

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Trabalhar com artesania

Namorar os documentos

Ter mais atenção nas coisas

Viajar

Em Salvador....

sábado, dezembro 26, 2009

Tempo nublado e com cara de chuva... frio que me fez acordar cedo.

Mas é verão! Um sábado de praia... o que não deveria acontecer é ficar cinzento o céu de Amaralina. Se bem que desde ontem o céu está bem cinza e a brisa passou de fresca para fria. Não me incomoda - até gosto de um ventinho mais frio (para os padrões baianos, claro). As árvores (as poucas árvores de Amaralina) estão dançando, as cortinas da sala estão descontroladas. O prédio ao lado é de cor bege. Combinado ao ceú cinza faz tudo parecer a atmosfera de um sonho antigo. Nessa paisagem meio sem cor, apenas duas coisas teimam em ficar: uma camisa laranja na janela do apartamento vizinho e uma borboleta no muro do prédio ao lado. Todo o resto me remete a uma fotógrafia em sépia. Nessas horas, corre-se o risco de "quintanear" e assinar qualquer coisa com a data de 1774, já que fica a sensação de que tudo faz tanto tempo.

Hoje é dia de cuidar de coisas domésticas, sair com a família...

Ontem também foi um dia meio átipico, aliás, os dias desse ano podem ser descritos com essa palavra - para o bem e para o mal. 2009 pode ser descrito também, e pelo que percebi para muita gente além de mim, como o ano das encruzilhadas, de muito desencontro, reencontro, despedidas e encontros organizados pelo acaso. De desafios, de começos, recomeços, de confrontos. Um ano que pediu uma maturidade e jogou na minha cara (e na de muita gente) as limitações.... superar essas dificuldades ficou colocado como uma necessidade de sobrevivência e não como escolha. Seguir adiante, seguir sem medo é, como diz a amiga Juaquina, "tarefa quase impossível". Mas, no entanto, ficar é ainda mais doloroso.

Esse ano algumas de minhas certezas mais sólidas foram abaladas de modo profundo e minhas dúvidas saíram do estágio de fluidez e deslizamento para algo fixo. Líquido e certo.

Deus (ou como você preferir chamar sua Divindade predileta) abençoe quem inventou essa contagem (que mesmo boba) nos permite ordenar a vida em segundos, horas, dias, meses e anos, como se a passagem das horas pudesse ser medida por um relógio ou por um calendário, nos permite dizer que "ano que vem tudo será diferente, será melhor, mais feliz", nos permite ter esperanças e sonhos.

O ano que se mostra diante de mim, embora se exiba cheio de possibilidades em um nível quase narcotizante, já se apresenta, contudo, como algo passado, um amanhã que já é ontem. É tudo tão acelerado e tão cheio de luzes, brilhos, barulhos.... Por que nós aceleramos a nossa vida, como se acelerar resolvesse os problemas? Os carros devem ficar atrás dos bois.

O ano nem chegou e não sei se devo ter esperanças ou se devo desde já me decepcionar - ou criar esperanças falsas, temerosas. Prefiro ter as esperanças, mesmo que isso implique em pagar um preço mais alto, em me arriscar mais. De fato, a única certeza é que não dá pra ficar parado - a vida não espera. Já posso celebrar ter chegado até aqui em um ano tão cheio de reviravoltas, mudanças de rumo, quizilas, gíngis, consumições e tanficâncias. Quem sabe onde eu estarei daqui há um ano? Com quem? O que foi bom vai permancer aqui... mas há como saber precisamente o que é efetivamente bom ou ruim?

Os anos passados também viram tanta coisa passar (coisas boas, coisas ruins). Eu fui com eles, voltei com eles. Agora eu estou aqui.

Esse, repito, foi um ano que exigiu das pessoas superar problemas, vaidades, medos, vergonhas, limitações diversas, testou a humildade. Creio também que os preços serão cobrados em breve, assim como em breve virão as recompensas... as recompensas também cobram um preço, disso não se pode esquecer.

A encruzilhada está aí, não se pode ficar parado diante dela - afinal estamos vivos. Há quem pense que é a porta que escolhe o homem e que o caminho é sempre estreito, mas que alguns ficam cegos e enxergam-no como sendo largo. Há quem diga que é sempre o homem que escolhe o caminho. Há quem diga que não há caminho do meio. Há quem diga que só há o caminho do meio.

Não dá pra pensar, não dá pra respirar, só é permitido seguir em frente... sem nunca fechar as portas, mas sempre queimando as pontes. Sem ensaios, sem rascunho.

Eu vou ao seu encontro.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

The fact that you are married, only proves you're my best friend.
(Pale Blue Eyes - Lou Reed)

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Me chame pelo meu nome
Me olhe nos olhos
Me desconcerte
Me desarme
Ignore minha guarda alta
Ignore minhas cicatrizes
Ignore meus medos
E meus pés no chão
Me torne outra vez um menino - me faça o seu menino
Me faça cafuné no final da tarde
Veja um por-do-sol comigo
Me tranquilize no meu despero
Me dê colo depois de um pesadelo
Apareça nos meus sonhos
Esteja comigo quando eu dormir
E me abrace quando eu acordar

He couldn't stay
He's back home, now.
Far away from where he wants to be
But either way
They belong together.
Will they ever meet again?